O aparecimento da “Carta ao povo de Deus” assinada por Dilma Rousseff lembra a “Carta ao povo brasileiro” do Lula, em junho 2002. Diziam que o Lula ia solapar a estabilidade econômica, e ele, mesmo já sendo favorito, pôs os pingos nos is. Em 2010, ninguém aposta que a Dilma vai fazer aventuras na economia, mas muita gente ainda a olha de forma enviesada por não ter um, digamos, sólido histórico cristão sobejamente conhecido. Então, para debelar o temor de que possa vir a solapar as bases morais e os valores cristãos, ela resolveu soltar essa “Carta”.
Mas não sei não. Era a carta da Dilma tão necessária quanto a de Lula em 2002? Não acho. No fundo, foi uma reverência besta, grandemente dispensável. Excluídas as passagens sobre o “Deus perfeito”, as maravilhas da fé e outras médias, o que sobra é isso:
Lembro também minha expectativa de que cabe ao Congresso Nacional a função básica de encontrar o ponto de equilíbrio nas posições que envolvam valores éticos e fundamentais, muitas vezes contraditórios, como aborto, formação familiar, uniões estáveis e outros temas relevantes, tanto para as minorias como para toda sociedade brasileira.
Ora, no atual estágio da civilização brasileira, em que pesquisas com células-tronco ainda causam estardalhaço, alguém imagina um presidente tomando iniciativas de descriminalizar o aborto e aprovar o casamento homossexual? Seria suicídio. Então, batata pro Congresso.
Nosso rumo por enquanto é educação, senhoras e senhores, é democratização do acesso de qualidade à internet. Só o projeto da Dilma para a expansão da banda larga já teria sido suficiente pra ganhar o meu voto. Que os brasileiros cada vez mais se informem de tudo e leiam sobre todos os temas, em diversas línguas. Que as próximas gerações saiam do ensino médio sabendo o que é um blastocisto.
Isso não quer dizer que o movimento pela descriminalização do aborto e outros tenham que esperar até a próxima geração calados, resignados. Não, a pressão e o esclarecimento do público devem continuar. Mas esses grupos estarão sendo ingênuos se esperarem que o próximo presidente some-se a eles na dianteira das lutas. O importante é que Dilma (ou Serra; Marina, não sei) nunca verá os movimentos de mulheres e o movimento gay como um mal. Isso é certo. Se você quer saber o que seria uma presidência trágica, veja o que mediocridades como Levy Fidelix já disseram sobre esses temas.
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Para uma melhor análise da carta, leia esse post do Fabiano.