Submarino.com.br
Index Rotating Header Image

Dawkins é necessário, pode acreditar

-- Sempre um prazer passear pelas páginas deste senhor --

Os amigos que costumavam visitar o Index e travar suas boas discussões não precisam sair do OPS! para ler sobre ateísmo e religião — temas que foram o incentivo para a criação deste blog, mas que depois foram relegados.

Biajoni defende Dawkins. Marcos Donizetti critica Dawkins. (Aliás, esses dois são das mais recentes contratações do OPS!, um portal que não brinca em serviço.)

Na verdade, o trecho do Marcos que me incomodou mesmo é aquele sobre a “Ideologia da Racionalidade Tecnológica e do Culto ao Especialista“. Sei não. Claro, qualquer um que acorde no meio da noite sentindo uma dor no lado esquerdo do peito está livre para procurar na manhã seguinte um borracheiro ou um homeopata, mas o preocupante é a frequência com que a crítica da banalização ou da ignorância científica dos meios de comunicação resvala para o discurso anticiência.

Quanto ao Dawkins, quero dizer apenas que tenho lado nesse negócio. Sou fã do homem.

Uma das coisas que mais acho divertido sobre certa crítica a Dawkins, Hitchens e companhia, é que pensam que eles são “ateus militantes” e apenas isso. Assim, viveriam apenas para ler e refutar os feeds do site do Vaticano.

Dawkins é necessário, antes de mais nada, pelo excelente trabalho de divulgação científica que faz (e pelos estudos que fez em genética e evolução). Mas ele também é necessário pelo trabalho que faz de crítica à religião. Não é uma crítica pela crítica. Assine o feed do RichardDawkins.net e veja como divulga-se e debate-se artigos sobre laicismo, direitos da criança e emancipação feminina, por exemplo. Há também artigos críticos ao “novo” ateísmo e a Dawkins, especificamente.

Hitchens é necessário, antes de mais nada, pelos excelentes artigos que escreveu e escreve sobre literatura e política internacional. Mas também é necessário pela crítica à religião, concorde-se ou não com seus argumentos principais ou seu tom.

Necessários para relembrar fatos convenientemente esquecidos, para levantar pontos a partir de novas conjunturas, manter o debate vivo, etc. Claro, quem não gosta do debate ou não gosta de debate, paciência. Também quem gosta de debate, mas não do Dawkins, está em seu direito.

Mas é preciso lembrar que argmentos como “Dawkins é dispensável porque não diz nada de novo” é fraco. Mesmo que todos os argumentos de Dawkins já tivessem sido trabalhados por Nietzsche, Sartre e Freud, ainda assim quem vai negar a utilidade de certos best sellers para levar novos leitores para livros clássicos e fazê-los tomar conhecimento de novas linhas de pesquisa (o que Dawkins faz constantemente)? Convenhamos: Nietzsche, Sartre e Freud não tinham como saber tanto de biologia, neurociência ou psicologia evolutiva quanto Dawkins. E se você acha que essas áreas são dispensáveis para uma melhor compreensão dos fenômenos religiosos, então está precisando não apenas ler (ou reler, dessa vez com mais atenção) Dawkins, mas também Daniel Dennett, Steven Pinker, Nicholas Humphrey, Pascal Boyer, Matt Ridley, Jesse Bering e mais um punhado de outros autores, “ateus militantes” ou não.

Se eu levasse a sério o argumento de que livros que apenas retrabalham velhas ideias são, por esse simples fato, tão inúteis quanto os best sellers mais vagabundos da atualidade, da próxima vez que fosse arrumar a estante teria que jogar fora meu Religion and Science, do Russell, só pra começar. Depois, o Ensaio sobre as liberdades, de Raymond Aron (boy, quanta gente antes do Aron já havia escrito mais e melhor sobre a liberdade…). Tudo do Primo Levi teria igualmente que entrar em órbita (o quê!, denúncia do Holocausto em plenos anos 80? Requentadíssimo). E por aí vai. Mas eu prefiro mantê-los ali não muito distantes do panfleto ateísta do Dawkins.

—–
A resposta do Marcos ao meu post está aqui nos comentários e lá no blog dele. O André Egg também deu sua contribuição (eu disse que você não precisa sair do OPS!), crítica ao Dawkins.  Pronto, agora o jogo empatou em 2 a 2 e a partida será decidida no cara ou coroa.

18 Comentários on “Dawkins é necessário, pode acreditar”

  1. #1 Marcos Donizetti
    on Jan 28th, 2011 at 3:01 am

    “Claro, qualquer um que acorde no meio da noite sentindo uma dor no lado esquerdo do peito está livre para procurar na manhã seguinte um borracheiro ou um homeopata, mas o preocupante é a frequência com que a crítica da banalização ou da ignorância científica dos meios de comunicação resvala para o discurso anticiência.”

    Bem, quem dera a questão fosse tão simples. Antes de mais nada, eu estou extremamente distante de alguém que poderia postular um discurso anticiência, pois acima de qualquer coisa me considero um homem da ciência. Como muitos dos que estão nos lendo, fui (e ainda sou) uma criança que cresceu fascinada pela divulgação científica de Carl Sagan e por assuntos como Evolução das Espécies, Relatividade e Astrofísica. Se hoje meu referencial teórico é a Psicanálise (e é óbvio que podemos discutir seu status científico), minha trajetória acadêmica começou com a Física (ainda e sempre um dos meus grandes amores). A crítica da Racionalidade Tecnológica, diferente do que você imagina, é um discurso em defesa da ciência. Contra a apropriação do discurso científico por interesses outros e por uma dinâmica que, paradoxalmente, leva ao embotamento (um efeito colateral de religiões também) e à diminuição da capacidade crítica. Ao mesmo tempo, a crítica a essa apropriação ideológica da ciência é parte de uma ética humanista, já que alerta contra o que chamamos de reificação do sujeito. A ciência, a capacidade de questionar-se e ao mundo que nos cerca, talvez seja a principal capacidade humana. Quando um discurso ideológico, pretensamente científico, age em sentido contrário, surge essa crítica. Recomendo como referência o livro “Computador No Ensino E A Limitação Da Consciência”, de José Leon Crochik.

    “Ademais, convenhamos: Nietzsche, Sartre e Freud não tinham como saber tanto de biologia, neurociência ou psicologia evolutiva quanto Dawkins. E se você acha que essas áreas são dispensáveis para uma melhor compreensão dos fenômenos religiosos, então está precisando não apenas ler (ou reler, dessa vez com mais atenção) Dawkins, mas também Daniel Dennett, Steven Pinker, Nicholas Humphrey, Pascal Boyer, Matt Ridley, Jesse Bering e mais um punhado de outros autores, “ateus militantes” ou não.”

    Concordo com você em um ponto: a possível utilidade de Dawkins como “porta de entrada” de um grande público para novos e mais aprofundados estudos a respeito das religiões. Dou meu braço a torcer aí. Porém, infelizmente, conheço pouquíssimas pessoas que dão esse passo. Acho Dawkins fantástico enquanto cientista, com trabalhos realmente sensacionais em áreas que você citou. Conheço também alguns dos autores que você diz que devo ler com mais atenção, mas reafirmo: “biologia, neurociência ou psicologia evolutiva” realmente são dispensáveis para uma melhor compreensão tanto dos fenômenos religiosos quanto do conceito Deus. São fenômenos de outra ordem, e aí refuto os trabalhos de Dawkins nessa área como, sim, ruins. É tentar um embate fora de seu campo. Estou longe de ser um analfabeto na área das neurociências, e te digo que usar este referencial para explicar fenômenos de ordem majoritariamente cultural e psicológica é algo infecundo, e parte do problema do status ideológico da ciência que eu citei acima (recomendo este blog: http://neurocritic.blogspot.com/). Acreditar que fenômenos dessa ordem ou, no limite, a (in)existência de Deus, possam ser provados ou negados com base em biologia, física, química ou “psicologia evolutiva” (ARGH!) configura uma crença (a não ser que achem o gene da religião ou a localização de Deus no sistema nervoso) que não resolve este embate secular “ciência x religião”.

    Deus é conceito, é idéia, é representação simbólica associada a uma instância psíquica que independe de quaisquer “fatos” contra si apresentados neste enfoque “científico” a lá Dawkins. Meu argumento é que a existência ou não de Deus no mundo real, físico, natural, mensurável etc nem importa. Sejamos sinceros, se as evidências factuais das ciências naturais fossem a arma correta para “matar” Deus, já não teríamos mais criacionistas há tempos. Porém, Deus age enquanto conceito associado e indissociável da nossa própria estrutura subjetiva. Os autores que citei, Nietzsche, Sartre e Freud, na verdade não precisavam desses conhecimentos em biologia e neurociência pelo simples motivo de que este embate é acima de tudo sociológico, filosófico e psicológico. Neste campo, a discussão é muito mais fecunda, porém trata-se de terreno mais árido, pois aí não estamos protegidos por um certo determinismo reconfortante presente, por exemplo, na “Psicologia Evolutiva”. Trata-se de responsabilidade, de apropriação de condição de Sujeito, de postura ética e política.

    Por fim, agradeço a contribuição ao debate (que é uma delícia), mas te digo: se acredita que biologia, neurociência e psicologia evolutiva são áreas que contribuem de maneira indispensável ao entendimento dos fenômenos religiosos, está precisando não apenas ler (ou reler, dessa vez com mais atenção) Nietzche, Sartre, Freud, Zizek, Lacan e mais um punhado de outros autores. =D

    PS – Que morada fascinante o OPS, não?

  2. #2 leocruzsouza
    on Jan 28th, 2011 at 6:09 am

    Oi Daniel,

    Gostei muito da sua crítica. Já havia lido os textos do Biajoni e do Marcos. Apesar de estar ao mesmo lado de Dawkins no seu combate, tenho, é claro, minhas restrições a ele, acho que ele passa umas vergonhas que não precisava passar, era só ler um pouco mais de filosofia. É claro que é um cara muito necessário. Gostei demais de “O relojoeiro cego”, e menos de “Deus um delírio”.
    Essa crítica de que “Dawkins & CIA não dizem nada de novo, só repetem o que Freud, Nietzsche e outros disseram antes”, é mesmo de doer. Gostei da resposta do Onfray a essa crítica (entrevista à Veja):

    Veja – Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?

    Onfray – Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

    abração!

    Lelec

    PS: link para a entrevista do Onfray

    http://veja.abril.com.br/250505/entrevista.html

  3. #3 Biajoni
    on Jan 28th, 2011 at 7:05 am

    valeu, daniel, acho que é por aí.
    :>)

  4. #4 Marcos Donizetti
    on Jan 28th, 2011 at 9:03 am

    Mais grave (e de doer) do que “não dizer nada novo” é não dizer bem. É optar por tentar abordar a questão fazendo uso das armas erradas. Minha resposta está aqui: http://donizetti.opsblog.org/2011/01/28/dawkins-e-necessario-a-questao-e-acreditar/

  5. #5 Ricardo C.
    on Jan 28th, 2011 at 9:42 am

    Um problema comum dessas acaloradas discussões envolve a combinação de alguns fatores. Listo abaixo os primeiros que me ocorrem.

    1. A frequente construção da própria opinião a partir de:
    1.1. referências secundárias (informações de segunda mão vindas da mídia em geral) e em número limitado;
    1.2. opiniões de gente “em quem confiamos” (o que, paradoxalmente, não é um critério confiável, por mais que queiramos que seja e gostemos muito dessas pessoas, muitas vezes por se tratar de papai, mamãe, irmão mais velho, o professor que admiramos etc.)

    2. O nosso próprio desinteresse pelo debate, a partir de um dado momento, seja:
    2.1. porque já temos um posicionamento definido sobre ele (e, portanto, também posicionamos os demais em relação a ele), posicionamento esse que com o tempo consolida algumas convicções (e convicções nem sempre têm fundamentação criteriosa, mas por serem “certezas” que muitas vezes servem para definir-nos diante do mundo e de nós mesmos é difícil abrir mão delas);
    2.2. pela importância que damos ao tema;
    2.3. pelos participantes do debate (e a avaliação que fazemos sobre eles);
    2.4. pelo lugar/contexto em que o debate ocorre (se na internet, no bar, na Academia ou na academia, um na estera e outro na bicicleta ergométrica).

    Particularmente, não li do Dawkins mais do que O Gene Egoísta (há muito tempo) e um ou outro artigo (provavelmente traduzido por você, Daniel :-P ). É que a discussão sobre ateísmo, religião e afins tem lugar muito limitado no meu arco de interesses, levando em conta inclusive o fato de nunca ter sofrido na pele nada que diga respeito a esses assuntos apesar do meu agnosticismo explícito (que, vale dizer, na prática funciona como ateísmo). Suponho que esse meu posicionamento possa ser fonte de problemas em certos ambientes, mas eu nunca vivi nada parecido.

    Por conta do meu limitado interesse em participar ativamente desse debate, apenas trato de não confundir o eventual tédio que ele me causa com opiniões definitivas sobre os seus participantes, os argumentos em pauta e tudo mais que lhe diga respeito. O tédio é meu e seria um equívoco metodológico avaliar o valor, a direção e o papel dos participantes desse e de qualquer outro debate a partir de tal sentimento.

  6. #6 Biajoni
    on Jan 28th, 2011 at 10:06 am

    RT @IndexOPS: Dawkins é necessário, pode acreditar http://bit.ly/hNYteQ

  7. #7 judacoregio
    on Jan 28th, 2011 at 10:55 am

    Ótimo!!!!

  8. #8 daniel
    on Jan 28th, 2011 at 1:20 pm

    Oi, Marcos.

    Conheço várias pessoas que dão o passo do Dawkins para outros autores.

    Você diz que “biologia, neurociência ou psicologia evolutiva realmente são dispensáveis para uma melhor compreensão tanto dos fenômenos religiosos quanto do conceito Deus”. Discordamos, claro. Esses campos não têm nada a ver com a existência ou não de Deus; mas com o fenômeno religioso e com o conceito de Deus? Só têm! É ainda incipiente a contribuição da neurociência para a compreensão das crenças — não apenas em deuses, mas outras crenças, razoáveis e absurdas; não vejo por que os trabalhos dos neurocientistas nessa área devessem parar. E a psicologia evolutiva é sim indispensável para a melhor compreensão de certos fenômenos culturais e… psicológicos. Não pude deixar de notar seu asco pela psicologia evolutiva, hehe, mas ainda assim sugiro que leia o livro de Pascal Boyer sobre religião — um antropólogo francês que não quer prender o Papa, um cientista social que não é ignorante da ciência de seu tempo (como eu acredito que Sartre, Nietzsche e Freud não seriam se fossem vivos nestas alturas do campeonato).

    Abs.

  9. #9 daniel
    on Jan 28th, 2011 at 1:24 pm

    Certeira, a resposta do Onfray.

  10. #10 daniel
    on Jan 28th, 2011 at 1:33 pm

    Também nunca sofri na pele nada além do básico “você não é ateu, isso não existe, você apenas tem preguiça de ir à missa”. Ainda assim tenho certo interesse pelo lado “militante” do ateísmo. Em certos quadrantes do mundo, especialmente, esse é o tipo de ateísmo mais necessário.

    Obrigado pelo comentário (e não esqueça de ler o ‘Capelão do Diabo’ :-)

  11. #11 Ricardo C.
    on Jan 28th, 2011 at 1:54 pm

    Apesar do comentário longo que fiz, ainda ficou faltando um detalhe importante: mesmo sobre o tal lugar limitado desse debate entre os meus interesses, esse limite diz respeito mais a participar de maneira mais ativa nos debates sobre esses temas. Porém isso não me demove de ler tudo o que é publicado por aqui e quase tudo o que aparece no Bule Voador. :-D

  12. #12 Juliana Dacoregio
    on Jan 28th, 2011 at 2:04 pm

    RT @IndexOPS: Dawkins é necessário, pode acreditar http://bit.ly/hNYteQ

  13. #13 Marcos Donizetti
    on Jan 28th, 2011 at 11:59 pm

    Tenho profundo respeito pela Biologia e pela Neurociência. Alguns de meus amigos mais queridos são profissionais ou pesquisadores nessas áreas, e conheço estudos simplesmente fantásticos da segunda. Porém, em seu atual estágio, estes braços científicos não oferecem mesmo subsídios para argumentos que eu veja como sustentáveis sobre este nosso tópico. Até por isso acho o Dawkins tão falho (e acho que já deixei isso claro, não os vejo como referenciais válidos e é isso). Já a tal “psicologia evolutiva” eu não levo mesmo a sério e não respeito (isso é assunto para todo um post ou artigo um dia). =)

  14. #14 Qual é o alvo de Deus, um delírio? | Sociologia do Absurdo
    on Jan 30th, 2011 at 2:41 pm

    [...] se deve ao ótimo debate começado por Luiz Biajoni e Marcos Donizetti. Na seqüência Daniel Lopes e André Egg também escreveram sobre o tema. Peço que relevem um possível desarranjo do texto, [...]

  15. #15 Ateísmo e Estado Laico | Sociologia do Absurdo
    on Jan 31st, 2011 at 8:45 pm

    [...] em torno do debate começado por Luiz Biajoni e Marcos Donizetti. E continuado por Daniel Lopes e André Egg. Leia também segundo post do [...]

  16. #16 Tatiana Carlotti
    on Feb 3rd, 2011 at 9:52 pm
  17. #17 Eneraldo Carneiro
    on Feb 4th, 2011 at 4:55 pm

    Aê Daniel

    Meti a mão na cumbuca. Enfiei o pé na jaca. Pisei no tomate. E chutei o pau da barraca.
    Além de entrar na festa sem ser convidado:
    http://gatoprecambriano.wordpress.com/2011/02/04/o-resgate-de-dawkins/

    []‘s

  18. #18 Dawkins, o zagueirão – A Terceira Margem do Sena
    on Feb 8th, 2011 at 8:49 am

    [...] Quando os centroavantes forem Chesterton, Plantinga e Bonhoeffer, aí o Dawkins tem mesmo que ficar no banco e ver se aprende alguma coisa com uma zaga formada por Russel, Ehrman e Sartre. Mas, enquanto o ataque religioso vier de gente como o RR Soares, Dawkins é necessário, pode acreditar. [...]

Deixe um comentário