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O humor de Graciliano

Taí um ótimo lançamento, esse livro do Luciano Oliveira pela editora Vieira & Lent.

São ensaios com paralelos entre Graciliano e Machado, autores geralmente citados em um mesmo parágrafo quando se quer notar as (muitas) diferenças entre ambos, principalmente biográficas e ideológicas. Para Luciano, a prosa dos homens guarda uma parecença nada desprezível.

É convincente, o autor. Logo no primeiro ensaio, mostra semelhanças entre o tom de conversa com o leitor que Graça empreende em S. Bernardo e aquele levado a cabo pelo Machado da segunda fase.

Entre amigos e um copo de cachaça e outro, Graça desprezava Machado. Revoltava-se quando insinuavam que o Bruxo seria uma de suas influências; dizia que só havia lido Machado após já ter bem iniciada a vida de escritor. Mas Luciano acha que isso é conversa pra ninar bovino, tendo em vista que Dênis de Moraes, em O velho Graça, revelou que o alagoano tomara conhecimento da literatura de Machado ainda na casa dos 20 anos – Caetés, seu primeiro romance, só escreveria com 30 e tantos anos. (O que não prova nenhuma influência direta, claro: Graciliano pode ter lido sim Machado, mas detestado ou não ter visto nada demais. Mas então por que mentia? Ou Dênis de Moraes terá sido impreciso?)

Machado eu li e não gostei. Mas estou gostando de ler o que Luciano tem a dizer sobre ele – para se orientar, ele usa a crítica de John Gledson e Roberto Schwarz, agentes do comunismo internacional que segundo Diogo Mainardi “sequestraram” o verdadeiro Machado (snif, snif…).

O que me interessa mesmo no livro são as partes que centram com força em Graciliano. Desde que li Graça pela primeira vez, vejo o humor como uma de suas características principais – iniciei por S. Bernardo. Luciano não apenas confirma meus sentimentos, como escreve um ensaio inteirinho dedicado ao humor de Graciliano, ou melhor, ao “humor no mau humor de Graciliano Ramos”. Porque havia mau humor na personalidade do Graciliano e porque há mau humor nos personagens enfezados do Graciliano, que algumas vezes são alter egos, principalmente aqueles que desprezam o beletrismo, a intelectualidade de fachada, o patriotismo canalha.

Que há humor em Caetés é fácil de ver. Mas segundo alguns críticos, a tendência teria sido abortada aí, sem se propagar para as obras subsequentes. Tese discutível, diz Luciano. É que se vê Vidas secas como a obra-prima do autor (o que na minha opinião não é verdade), e trata-se mesmo de uma obra exclusivamente de denúncia social, sem espaço para o humor. Mas ainda que se tenha Vidas secas entrando na equação com um peso maior, como se pode subestimar a importância dos outros livros? Se observa muito em S. Bernardo o lado de denúncia, e pouco o lado cômico – tragicômico, sem dúvida, mas êniuei. Em Angústia há humor. E mesmo, meu deus!, nas Memórias do cárcere - … que, pensando bem, de outra forma seria insuportável.

O ensaio de Luciano Oliveira sobre o humor no mau humor de Graciliano acaba de entrar no Amálgama (muitíssimo obrigado à editora pela autorização). Reserve um espaço do seu final de semana para ler, é ótimo.

O livro já pode ser adquirido em várias lojas virtuais. Será lançado na Livraria Cultura de Recife na próxima terça, 30 de março, às 19h. O prefácio é assinado por Fernando da Mota Lima, professor da UFPE e colaborador do Amálgama.

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