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Eu entendo a reação de certa esquerda aos acontecimentos na Líbia

Trípoli nem caiu ainda completamente (ou já?), mas certa esquerda já começou a temer (torcer para) que a Líbia seja o “próximo Iraque”, querendo dizer com isso um mar de sangue antes de estabilização. E já começou a relembrar que a Líbia tem uma das maiores reservas de petróleo do planeta, informação de que os líbios que deram as boas-vindas à OTAN e portam bandeiras da França infelizmente careciam.

A Grande Teoria Petrolífero-Imperialista é o que dá oxigênio à militância.

Essa esquerda vibrou com a queda do ditador tunisiano e do ditador egípcio, aliados do Ocidente. Mas quando os líbios e os sírios começaram a querer derrubar seus ditadores, a coisa perdeu um pouco da graça entre alguns grupos. Observem, por exemplo, a diferença de cobertura que a TeleSur, tevê-privada de Hugo Chávez, dedicou à queda de Mubarak e à queda de Kadafi (ou à atual matança na Síria). Se você acha que esse tipo de cobertura-torcida não tem trânsito entre pessoas sãs, você precisa ler seus feeds e Twitter com mais atenção.

Quanto à Líbia, no começo da revolta até me apareceram com uma foto da Condoleezza Rice se reunindo com Kadafi, mas logo que souberam que a relação fez o ditador desistir de seu projeto nuclear e não rendeu mais petróleo pros EUA, deixaram pra lá. Kadafi desistiu de suas ambições nucleares com medo de ter destino parecido ao de Saddam – o que, se os rebeldes o pegarem antes de embarcar pro exílio, pode não ter servido de nada.

É que a queda da ditadura líbia, assim como a queda da ditadura iraquiana (a mais sanguinária de todas) 8 anos atrás, teve participação externa. Para a esquerda “anti-imperialista”, imperialismo, claro, é o que de pior pode haver. E ações imperialistas, como ensinou um assassino qualquer do século 20, são o estágio superior do capitalismo. Daí que uma intervenção nos Bálcãs desconcerta.

Para a Grande Teoria, há povos oprimidos em todo o mundo e países ricos responsáveis direta ou indiretamente (através de ditadores amigos) pela sua opressão. Que haja opressores com ideologia e trajetória alheias ao Ocidente, ou que uma aliança contendo Europa e EUA possa intervir com genuíno interesse em propagação democrática, é algo que não existe no universo ideomaníaco.

Cenas como essa:

ou essa:

são completamente alheias à doutrina.

Então, enquanto líbios, egípcios, sírios e outros nacionais lutam para conseguir, entre outras coisas, democracia parlamentar e progresso econômico, setores da pequena burguesia ocidental preferem torcer para que a intervenção da OTAN se mostre no final das contas um fracasso. Sem isso, seu pequeno mundinho não fará sentido.

Hoje à noite, em uma esquina de Trípoli há mais inteligência e esperança para a humanidade do que em uma dúzia de sites “progressistas”.

No mais, leia também esse post do Cesar: “Esterilidade e repetição na mídia de esquerda“.

6 Comentários on “Eu entendo a reação de certa esquerda aos acontecimentos na Líbia”

  1. #1 Conceição Oliveira
    on Aug 22nd, 2011 at 10:12 pm

    http://t.co/t52gVRq do @daniel_index é um texto interessante e sim acontece, mas não dá pra pôr todo mundo no mesmo caldo.

  2. #2 BrightCapiXaba Netto
    on Aug 30th, 2011 at 8:17 pm

    “A Grande Teoria Petrolífero-Imperialista é o que dá oxigênio à militância.”
    A “esquerda militante” se esquece de que até na Venezuela de “Chavez!” os Protestos contra o Ditador ainda continuam.
    Lamentável o apoio do Brasil a Ditadores.
    Que o “Chavez!” seja o Próximo a Cair!

  3. #3 Eneraldo Carneiro
    on Sep 13th, 2011 at 11:40 am

    Daniel

    Você está alegando que Europa e EUA estão intervindo na Líbia

    com genuíno interesse em propagação democrática

    É isso mesmo?

  4. #4 daniel
    on Sep 13th, 2011 at 12:52 pm

    Também. Os rebeldes representam alguma chance para democracia na Líbia, estavam para perder, e a Otan entrou. Mas se incomoda tanto dizer que Europa e EUA são capazes de genuinamente apoiar alguma coisa boa, não tem problema, encare como interesse geopolítico (uma coisa não exclui a outra). Democracias são menos prováveis de causar problemas a outras democracias, no médio e longo prazo. Se os líbios conseguirem implantar um governo civil, democrático, a região toda agradece.

  5. #5 Eneraldo Carneiro
    on Sep 13th, 2011 at 2:09 pm

    “Também”? Bom, que você reconheça que há outros interesses em jogo já é alguma coisa, suponho, diante da tendência que você tem apresentado de ver esse caso como algo preto no branco, preto e branco. Exatamente como os esquerdistas de que você tanto fala, mas pouco cita, só que com o sinal trocado.
    Não é que me incomode dizer que EUA e UE sejam capazes de apoiar alguma coisa boa, apenas que o track record dos últimos 200 anos, por baixo, me autoriza a ser muito cético quanto a tão nobres intenções, e a não alimentar muitas ilusões a respeito. Me autoriza sobretudo a não ver as coisas de forma maniqueísta, como uma luta do bem contra o mal.

  6. #6 daniel
    on Sep 13th, 2011 at 2:28 pm

    Mas meu preto e branco é menos em relação aos EUA do que à Líbia de agora. Chance de democracia com Kadafi: zero; chance de democracia sem Kadafi: alguma. Ações do Kadafi: ruim; ações da Otan: bom. Conselho de Transição Nacional que pediu ajuda ao ocidente: correto; Hugo Chávez e “anti-imperialistas”: imbecis.

    Por exemplo, eu não morro de amores pelo track record da China, mas se ela democratizasse e quisesse decapitar o porco-espinho norte-coreano que está esfomeando sua população, eu acharia bom. Os japoneses e turcos têm genocídios de antes de ontem nas costas, mas acho bom que defendam e propaguem valores democráticos entre asiáticos e muçulmanos; não quero nem saber se, no final das contas, acabarão com melhores contratos com um Egito ou uma Myanmar democráticos.

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